Nosso entrevistado é Tchello d Barros, Escritor, Poeta, Artista Visual, Fotografo e Andarilho

Municípios Alagoanos – Conte-nos um pouco dos trabalhos que você desenvolve?
Tchello d Barros: No momento atuo em duas frentes, a Literatura e as Artes Visuais. Sendo que nas letras já publiquei 5 livros de poesia e também meia-dúzia de cordéis, todos escritos em Maceió. Já na área plástica, tenho uma produção em desenho, gravura e pintura, com ênfase mais recente em fotografia conceitual. Essas criações já participaram de cerca de 70 exposições Brasil a fora, entre coletivas e individuais. E ainda acho que o melhor está por vir…


M.A – Oriundo de Santa Catarina, por que escolher Maceió?


TB: Porque Maceió e região tem algumas das praias mais bonitas do continente. Porque tem um povo simpático e acolhedor. Porque geograficamente está bem situada no mapa e tem um estilo de vida mais light, propício ao Ócio Criativo. Estamos numa metrópole, uma capital, mas que também conserva muito do jeito de província, onde todos se conhecem. E também porque aqui há um grande desafio na área cultural, há muito que se fazer por aqui.


M.A – A principio como, na sua opinião, você sentiu a população alagoana lhe recebendo e o impacto que isto lhe causou?


TB: A princípio fiquei surpreso com o jeito hospitaleiro dos alagoanos, aqui se faz amizade fácil, e a solidariedade é uma marca da população em geral. E, na área cultural, desde que se apresente propostas de qualidade, as portas estão sempre abertas. Quando um projeto cultural chega para somar, a receptividade é muito boa. Ainda tenho alguma dificuldade com os sotaques e expressões regionais, nem sempre entendem meu esquisito sotaque do sul, mas vamos em frente, estamos todos no mesmo barco e cheguei para ajudar a remar.


M.A – Como você se define como artista?


TB: Não me defino. No entanto, o acervo de  textos críticos de pessoas que escrevem sobre meu trabalho apontam como principal característica a versatilidade de técnicas e estilos e também uma certa sintonia com questões da contemporaneidade, principalmente na abordagem dos temas e pelos diversos suportes e mídias que utilizo. Mas no fundo creio que quem deve definir algo, são sempre as pessoas que tenham algum contato com a obra dos artistas, quem compra o livro ou quem pendura um quadro em sua parede.


M.A – Você tem algum artista em que você se espelha nas mais diversas artes que desempenhas?


TB: Talvez fosse exagero dizer que a gente se espelha em alguém, até porque na medida do possível a gente tenta realizar uma obra original e uma trajetória pessoal de um jeito muito próprio. Mas não será demais mencionar alguns artistas que admiro, não apenas pelo conjunto da obra, mas pela atitude que tiveram diante da arte e diante da vida. Na Literatura: James Joyce, Kafka, Jorge Luís Borges, Charles Buckowski, Hild Hilst, Cruz e Souza, Jorge de Lima, Graciliano Ramos, Lêdo Ivo e o cordelista alagoano Jorge Calheiros. Nas Artes Visuais: Cindy Sherman, Jenny Holzer, Anish Kapoor, os brasileiros Angelo Venosa, Paulo Bruscky e a alagoana Ana Glafira.


M.A – Como você encara os apoios dos gestores públicos? Existe apoio por parte do governo do estado de Alagoas? Ele dá o incentivo para fomentar o seu trabalho?


TB: Talvez não seja o caso de mencionar os gestores públicos em si, essas pessoas que estão temporariamente em cargos institucionais, tentando fazer o que podem da melhor maneira e que, supostamente, deveriam suprir a população com projetos, editais e eventos culturais condizentes com o belo estado de Alagoas. Acho que a ferida é mais funda, uma grande lacuna histórica a ser preenchida. Considerando-se as condições que o Estado oferece para a arte se desenvolver, é quase um milagre que tenha surgido um artista de classe mundial como o caso de Delson Uchôa, que aliás, a maioria dos alagoanos do interior nunca viram uma de suas obras, hoje aplaudidas urbi et orbi. Os profissionais que atualmente ocupam cargos públicos nos aparelhos culturais de Estado em geral necessitam atualizar as instituições com os sistemas de gestão cultural que estão dando muito certo em outros Estados e adequar esses conceitos para a realidade alagoana, onde, como se sabe, o que não falta é talento, em todas as áreas da cultura.


M.A – E da parte do governo federal?


TB: Vai bem, nunca antes na história desse país, tivemos por parte do Minc e Funarte tantos projetos e processos de evolução da cultura, como os Pontos de Cultura e o Cultura Para Todos. Falta agora uma cidade como Maceió e um estado como Alagoas, atenderem a primeira premissa do Sistema Nacional de Cultura: incluir em seus respectivos Conselhos de Cultura representantes da sociedade civil de cada uma das linguagens culturais. Quem se habilita?


M.A – Como você artista avalia o desempenho da bancada alagoana, tanto no parlamento estadual, quanto federal – sem nos esquecermos dos senadores – na defesa da cultura? Você tem conhecimento de algum projeto de lei defendida pela bancada? Se, quais?


TB: Quem sabe seria melhor responder com outra pergunta: alguém já viu um político alagoano prestigiando uma abertura de exposição de arte ou algum lançamento de livro literário? Não falta quem afirme que eles não tem tempo pra isso, pois estão em suas alcovas tramando conchavos, conluios e desvios. E nas melhores rodas culturais comenta-se também que essa gente não teve uma boa educação cultural, nunca entraram num museu. Quantos terão lido Invenção de Orfeu ou Ninho de Cobras ou ainda “Sagarana”? Talvez até deconheçam os autores, seus conterrâneos…


M.A – Este ano haverá a V Bienal Internacional do Livro, você como Literário, como avalia a importância deste evento para Alagoas e para a classe literária?


TB: É um grande e belo oásis de letras, que demosntra a capacidade empreendedora de quem realmente quer fazer a diferença, mas as coisas vão além disso: o sucesso de público desse evento comprava o quanto o povo alagoano aprecia iniciativas assim e mais que isso, propicia os momentos presenciais onde os leitores poderão ter um contato direto com os autores alagoanos contemporâneos. Pode ser muito bom comprar ali por um valor mais acessível um best-seller americano, mas não há nada que pague a experiência de ver ao vivo uma declamação da poeta popular Mariquinha.


M.A – O por que das pessoas lerem e conhecerem os trabalhos de Tchello d Barros?


TB: Sugiro que não percam seu tempo com isso. Melhor é lerem os clássicos, como as obras de Homero, Dante e Cervantes. Mas, pra quem estiver ao menos movido pela curiosidade poderá conhecer uma poesia de viés experimental, pós-concretista e também alguma produção em Poesia Visual. Até o momento, se alguém se arrependeu, esqueceu de me comentar… Já no âmbito das Artes Visuais, embora boa parte do que faço se enquadre na categoria da arte dita contemporânea, não faltam os que conseguem identificar elementos de nossa rica, vasta e brasileiríssima cultura popular…


M.A – Enfim, deixem-nos a sua consideração final, uma frase que habitualmente você usa e gostaria de passar ao nosso cyber internauta.


TB: O poeta José Paulo Paes, que afirmava que a poesia é uma brincadeira pra se fazer com palavras, cunhou a seguinte frase: Cultura não é o que entra pelos olhos, mas o que modifica o olhar!. Evoé!


( Autor: Railton Teixeira )