Reinventando a escola com tecnologia. Com o professor Paulo Blikstein

Quando se fala que a escola precisa de tecnologia educacional, muitos restringem essa expressão a pequenos ou grandes laboratórios de informática. Isso, juntamente com a banda larga, segundo Paulo Blikstein, é como a eletricidade — não há como ficar sem. Professor premiado da Escola de Educação e do Departamento de Ciências da Computação da Universidade de Stanford, onde dirige um dos principais laboratórios de tecnologia educacional dos EUA, Blikstein foca seus estudos em trazer para as escolas tecnologia de ponta a preços acessíveis. Criar nas escolas verdadeiros laboratórios de criação e medir a expertise das crianças são somente algumas de suas ideias. Confira a seguir a entrevista que ele concedeu ao portal.


O Brasil tem condições de contar com tecnologia educacional nas escolas públicas?


Falar em tecnologia educacional soa como algo caro e complexo, porém hoje a realidade é diferente. Com a revolução da indústria de software e hardware, há muitos programas de graça e soluções de baixo custo. Se o professor tiver interesse, é só acessar a Internet e encontrará diversas possibilidades. Além disso, há inúmeras empresas que apoiam projetos na área de tecnologia, é só ir atrás.


Como o professor deve lidar com o fato de muitos alunos conhecerem e saberem lidar melhor com a tecnologia do que eles?


Professores não cresceram com a tecnologia, por isso encontram barreiras geracionais para lidar com algumas situações, mas é nessa hora que é possível aprender também com o aluno. Daqui a 10 anos essa barreira geracional não existirá mais e com o tempo irá desaparecer, pois as pessoas já nascerão na era da informática. É preciso mudar a visão clássica de que o professor sabe tudo, tem que instruir. Hoje encontramos alunos que sabem mais que o professor. Quando este se libertar dessa obrigação de saber tudo, vai aprender junto com o aluno e todos ganharão.


O uso do computador em sala de aula não distrai muito os alunos?


O computador não foi inventado para estimular a concentração, é preciso que o professor negocie com seus alunos que tudo tem hora.


Você comenta em seu discurso que no Brasil as avaliações restringem-se à análise de português e matemática básica e não à capacidade de inventar/criar dos alunos. Você está desenvolvendo um método de avaliar a expertise das crianças. Esse método funcionaria em um país tão grande como o Brasil?


O Brasil não pode se dar ao luxo de esperar mais 10 anos para começar a avaliar a criatividade ou o espírito empreendedor de nossos alunos. Estamos em fase de testes, mas o nosso programa terá algumas vantagens como a coleta automatizada dos dados e o monitoramento do desenvolvimento dos alunos a distância, orientando o professor sobre a melhor forma de estimular aquele aluno. Enfim, é uma avaliação que não requer a presença física dos avaliadores.


Você fala muito de salas especiais para o aluno criar. O ambiente estimula a criatividade?


Há vários estudos que comprovam a influência do ambiente externo nas pessoas. Nós somos uma pessoa em casa e outra no trabalho, o ambiente influencia no comportamento de todos.
Na escola, as tradicionais salas de aula condicionam a um determinado comportamento, reprimem certas ações e reforçam outras. Oferecer outro ambiente onde é possível conversar, criar e reforçar diferentes comportamentos é muito importante. É crucial ter ambientes que não sejam salas de aula. Há muitos alunos que não conseguem aprender da forma tradicional, em sala de aula, mas em outro lugar, bastante estimulador (como os laboratórios de criação), alcançam ótimos resultados.




( Autor: Roberta Obladen )